Lesões esportivas em jovens disparam com “cultura da performance” e pressão por resultados rápidos

Aumento da prática esportiva entre adolescentes vem acompanhado de crescimento de lesões por sobrecarga, impulsionadas por metas aceleradas e recuperação insuficiente

Por JOãO PEDRO
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A prática esportiva entre jovens nunca foi tão estimulada, mas o aumento da adesão tem sido acompanhado por um crescimento consistente no número de lesões. O momento é especialmente oportuno: o Brasil vive simultaneamente a Copa do Mundo FIFA 2026 e o pico da temporada de maratonas no país, com provas previstas em junho e julho em cidades como Praia Grande (SP), Campo Grande (MS) e Porto Alegre (RS). A combinação de estímulos esportivos em alta escala tende a amplificar a adesão de jovens à prática física e, com ela, os riscos associados à progressão inadequada de carga. Uma revisão sistemática publicada no British Journal of Sports Medicine indica que entre aproximadamente 30% e 60% dos adolescentes atletas apresentam pelo menos uma lesão ao longo de períodos de acompanhamento, evidenciando a magnitude do problema nessa faixa etária.
O cenário se conecta a uma mudança de comportamento impulsionada pelas redes sociais, nas quais metas de desempenho são frequentemente antecipadas e a progressão física ocorre em ritmo superior ao recomendado. Com a Copa do Mundo movimentando o imaginário esportivo nacional e maratonas lotando as agendas de fim de semana, cresce também o número de jovens que iniciam ou intensificam treinos de forma abrupta. Na prática, em poucas semanas, passam a buscar volumes e intensidades elevados, muitas vezes sem o devido controle de progressão.
Esse descompasso entre evolução cardiovascular e adaptação musculoesquelética tem sido apontado como um dos principais fatores para o aumento de lesões por sobrecarga, como tendinites, entorses e fraturas por estresse.
Segundo o fisioterapeuta e professor dos cursos de Medicina, Fisioterapia e Educação Física da Afya Unigranrio Duque de Caxias, Dr. Cícero Freitas, o problema não está na prática esportiva em si, mas na forma como ela vem sendo conduzida. “As adaptações iniciais ao treinamento são predominantemente neurais, com melhora da coordenação, recrutamento de unidades motoras e sincronização neuromuscular, gerando ganhos rápidos de força. Em contrapartida, as adaptações estruturais ocorrem de forma mais lenta. Elas envolvem o sistema cardiorrespiratório e a remodelação de tecidos musculoesqueléticos. Por isso, dependem de estímulos progressivos e consistentes ao longo do tempo”, explica.
Nesse contexto, a imposição precoce de altos volumes e intensidades de treinamento pode ultrapassar a capacidade de tolerância à carga desses tecidos, favorecendo o acúmulo de microlesões e aumentando significativamente o risco de lesões, especialmente as de sobrecarga. Esse risco é ainda potencializado na ausência de supervisão adequada, uma vez que muitos adolescentes iniciam a prática esportiva tardiamente, sem histórico prévio consistente de atividade física, e passam a se submeter a cargas elevadas sem o devido controle da progressão e da recuperação.
Volume de treino, impacto e fatores de risco
Os dados mostram que o risco de lesão não está ligado a um único fator. Segundo o artigo publicado no British Journal of Sports Medicine, adolescentes com sobrepeso apresentam risco até 34% maior de lesões esportivas, enquanto o aumento das horas semanais de prática está diretamente associado a maior incidência de afastamentos e dores articulares.
O levantamento aponta que cerca de 68,7% das lesões em adolescentes atingem os membros inferiores, com destaque para o joelho, responsável por quase 30% das ocorrências. Modalidades como futebol concentram a maior parte dos registros, impulsionadas pelo contato físico e pela repetição de movimentos de impacto.
Além das lesões agudas, como entorses e contusões, crescem também os quadros de sobrecarga, resultado de microtraumas repetitivos que ultrapassam a capacidade de regeneração do corpo.
Para o Dr. Selênio Campos Filho, médico da Confederação Brasileira de Vôlei e do Flamengo, e coordenador da pós-graduação em Medicina do Esporte da Afya Educação Médica, esse padrão exige atenção desde os primeiros sinais. “A dor é um marcador clínico importante no contexto esportivo. Quando ela persiste ou se intensifica com a continuidade do treino, isso indica que o organismo não está conseguindo se recuperar adequadamente da carga imposta. Na prática do esporte, sobretudo entre jovens, ignorar esse sinal pode levar à progressão de lesões por sobrecarga e afastamentos mais prolongados”, afirma.
Recuperação insuficiente e pressão por desempenho
A rotina dos jovens atletas frequentemente combina treinos intensos com sono irregular, alimentação inadequada e pouco tempo de descanso, fatores que comprometem diretamente a recuperação física.
A ausência de recuperação adequada interfere em processos essenciais, como síntese proteica, equilíbrio hormonal e reparo tecidual, reduzindo a capacidade do corpo de suportar novas cargas.
“O risco não está apenas na realização do treinamento, mas na ausência de recuperação adequada entre as sessões. A manutenção de intensidades elevadas sem o devido respeito aos intervalos de descanso compromete processos fisiológicos essenciais, como a síntese proteica, o equilíbrio hormonal e o reparo tecidual, promovendo acúmulo de fadiga e aumentando progressivamente o risco de lesões, especialmente as de sobrecarga”, afirma Dr. Cícero Freitas.
A lógica de comparação constante, impulsionada pelas redes sociais, reforça esse comportamento. Metas passam a ser definidas por referências externas, e não pela capacidade individual, o que acelera a progressão de carga e amplia o risco de sobrecarga.
Quando a dor exige avaliação especializada
Nem toda dor está associada a lesão. Desconfortos leves podem fazer parte do processo de adaptação ao exercício. No entanto, sinais como dor persistente por mais de alguns dias, piora progressiva, inchaço ou alteração no movimento indicam necessidade de avaliação clínica.
Nesses casos, a atuação de profissionais especializados em medicina do esporte permite identificar a origem do problema e orientar ajustes no treino, evitando a progressão para quadros mais complexos. “No esporte, o mais importante não é apenas tratar a lesão instalada, mas compreender o padrão de carga e recuperação que levou a esse quadro. Esse olhar é essencial para garantir um retorno seguro à prática e reduzir o risco de recorrência, especialmente em atletas em formação”, explica o especialista da Afya Rio de Janeiro.
Equilíbrio como estratégia de prevenção
O aumento das lesões entre jovens não está associado à prática esportiva em si, mas à forma como ela é estruturada. A combinação entre progressão gradual, recuperação adequada e acompanhamento profissional é determinante para reduzir riscos.
“Na prática, as lesões estão mais ligadas à progressão inadequada da carga, com aumentos rápidos e sem adaptação, do que ao volume total de treino.
O organismo precisa de tempo para desenvolver adaptações fisiológicas e estruturais consistentes. Sem esse cuidado e sem supervisão profissional, cresce o risco de lesão e interrupção do treinamento, prejudicando a evolução sustentável”, conclui o fisioterapeuta da Unigranrio.
 

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