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01/07/2022 às 16h59min - Atualizada em 03/07/2022 às 17h20min

O outro lado do burnout

Para o Dr. Estevam Vaz de Lima, autor de Burnout: a doença que não existe, não é possível falar em uma doença que se possa chamar de burnout

SALA DA NOTÍCIA Luiz Pêcego
Divulgação
Atualmente, muito se fala sobre “burnout”: diagnósticos, tratamentos e prevenção. Porém, do que realmente se trata o fenômeno? 

Para o Dr. Estevam Vaz de Lima, médico psiquiatra pela Escola Paulista de Medicina e psicanalista pela Sociedade Brasileira de Psicanálise e International Psychoanalytical Association, o burnout não se sustenta como “doença”, “patologia” ou “enfermidade”, conforme terminologia usada pelos autores da área, e aponta dezenas de argumentos nesse sentido. O médico é autor do livro “Burnout: a doença que não existe”, no qual propõe uma crítica à noção da alegada doença. Dr. Estevam ressalta que não questiona o sofrimento alheio, nem duvida que aqueles que receberam o “diagnóstico” de burnout estejam sofrendo, e afirma que os problemas são outros: as teorias sobre burnout são insustentáveis do ponto de vista médico:

“Não é possível falar em uma ‘doença’, ‘enfermidade’, ‘patologia’ ou ‘síndrome’ que se possa chamar de ‘burnout’. No meu livro, fundamento meu ponto de vista através de muitos vieses. Por exemplo: o questionário usado no mundo todo para fazer o diagnóstico, identifica burnout em 100% das pessoas, arrastando para dentro do seu ‘saco sem fundo’ cerca de 30 diagnósticos psiquiátricos, além de inúmeras experiências da vida comum que não chegam a caracterizar um transtorno mental. Na literatura internacional foram compilados 140 sintomas de burnout, que se confundem não somente com essas dezenas de diagnósticos psiquiátricos, como, também, com uma boa parte de doenças da clínica geral. Uma condição que acomete todo mundo e envolve 140 sintomas aponta muito mais para um ‘estado de confusão’, como tenho dito, do que para uma teoria minimamente consistente”, conclui.

No livro, que está à venda nas livrarias e nas plataformas digitais como Google Books e Amazon, Dr. Estevam destaca, entre outros tópicos, que uma das consequências de considerar burnout uma doença é a iatrogenia. Segundo ele, este é um ponto muito pouco lembrado por todos os que acreditam nessa classificação: 

“Iatrogênico é o ato, conduta, decisão ou orientação médica que causam dano ao paciente e não melhora, cura ou promoção da saúde. Assim, você pode rotular como burnout desde um aborrecimento passageiro no trabalho até uma depressão grave com risco de suicídio. Há um sério risco de que o primeiro seja medicado sem necessidade e que ao segundo se recomende ioga, mindfulness e que volte à academia – a última coisa que se deveria recomendar para alguém com depressão grave. O burnout é uma fonte inesgotável de possíveis erros médicos e consequências iatrogênicas”. 
 
Outro sério problema, segundo o médico, é que o MBI, o referido questionário para identificar o burnout, não está disponível para livre discussão nos meios científicos, é coberto por direitos autorais e é necessário pagar por seu uso. Como, na prática, o MBI e o burnout são sinônimos, isso de certa forma coloca o burnout como a primeira “doença” sobre a qual pesam direitos autorais.  

“A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) não reconhece burnout como doença, embora as notícias que circularam em nosso meio digam exatamente o oposto disso. Boa parte dessa desinformação, porém, é de responsabilidade da própria OMS”, explica o médico. 

Por fim, outra séria questão diz respeito a assédio moral:
 
“Não há uma só linha sobre assédio moral nos textos nos principais autores da área. Segundo eles, o burnout é essencialmente um problema do indivíduo e, nesse sentido, é uma noção antagônica à de assédio moral. Entretanto, o assédio moral é um dos principais, senão o principal fator de adoecimento psíquico relacionado ao trabalho. Haveria muito mais sentido em falar em ‘síndrome de assédio moral’, porque é mais específico, delimitado e tangível do que o burnout. Além disso, o assédio moral remete imediatamente o problema para o nível organizacional e para questões de disfuncionalidades nos ambientes de trabalho”, finaliza.  

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